Crônicas escolares

abril 23, 2010 às 1:05 am | Publicado em Uncategorized | 4 Comentários

E assim caminha a sala de aula

 

O professor então explicava um exercício de matemática, quando um aluno levanta  a mão: professor, por que sempre esse X, todo exercício temos que saber o valor de um X, por que tanta paixão pelo X? O professor responde: é uma incógnita apenas, podemos usar outra letra, por exemplo:  Z. O professor apaga o X  e coloca Z. Podemos usar W professor? Pergunta outro aluno no fundo da sala. Sim. Então coloque W, por favor. O professor assim o faz e ele então diz a todos: é a letra do meu nome. Logo outros alunos começam a reclamar, por que a letra do nome dele e não do meu. o professor para contê-los sugere que cada um use a letra do seu nome. Aí alguém lembra: e na prova, professor? Usarei X. X não, diz uma aluna próxima do professor, vamos inventar uma letra!! A sala concorda em inventar uma letra, cada um faria uma letra, dar-lhe-ia um nome e depois eles votariam em  qual seria a letra. Assim eles ficaram a conversar em grupos e a decidir a letra, logo veio o problema, se a prova é digitada como iriam colocar a letra?  Decidiram por uma lacuna, a letra seria colocada na lacuna. No final da aula, começou a votação, mas generalizou-se uma bagunça, afinal um aluno inventou uma letra  em forma de falo e a chamou de Pinis. Deu o sinal, o professor saiu, os discentes disseram-lhe que continuariam na próxima aula e que a aula estava muito legal.

Antes de entrar outro professor, organizaram as carteiras e um deles disse: vamos enrolar  na aula de história também.

Assim que o professor entra um aluno levanta a mão é diz: professor integralismo tem relação com pão integral?

(Ricardo Gomes Pereira)

 

O Abismo

No ventre do tempo, mais um tomo do crepúsculo, amarelando as corolas das margaridas e dos crisântemos. Várias crianças brincavam, um idílio lúdico e contemplativo, até que uma aventou brincarem de escolinha:
– Eu serei o aluno hiperativo, disse um. Esperem, eu serei o aluno que não faz nada, ficarei escondido mexendo no celular. Eu quero ser o diretor, está é minha sala, por favor, não quero ser importunado, vez ou outra aparecerei na sala e todos terão que ficar quietos com medo. Eu e ela vamos brigar, seremos inimigos na sala! Eu serei o inspetor, afinal sei o nome da mãe de todo mundo (pega um graveto) se perceber alguém fora desta alinha levo para o diretor. – Mas eu não quero ser importunado? Será só ameaça.
– Falta mais gente!
– Você será o nerd! Por que eu? Quem manda na brincadeira? Usa óculos, não precisa estudar de verdade! Tudo bem, ficarei sempre a perguntar e pedir lição. Eu serei a paqueradora, eu serei o roqueiro, eu serei o dançarino da sala, eu serei o conversador! Eu vou ser o dissimulado, farei bagunça e culparei os outros.
– E quem será o professor?
– Eu não, nem eu, eu também não. Vamos lá gente, é faz de conta!
– Ah, tipo assim, é uma aula vaga, um aluno passa a lição e os outros ficam na sala com o inspetor na porta.
– Legal, e aula de quê?
– Não importa não, depois ninguém lembra mesmo.
E no ventre do tempo, mais um Brasil tão real se aprofunda, cada vez mais fundo em seu próprio abismo.
(Ricardo Gomes Pereira)

O PROFESSOR ESTÁ SEMPRE ERRADO

Durante a aula da professora X, duas alunas começaram a brigar. A professora sem pensar duas vezes foi separar a briga, porém machucou uma das que estavam em pugna. A menina então ao chegar a sua casa contou que a professora a machucara, os pais levaram o caso à delegacia e à mídia. A professora X foi afastada.
Durante a aula da professora Y, duas alunas começaram a brigar. A professora sem pensar duas vezes saiu da sala para chamar alguém da direção, para que cuidassem do caso, entretanto outros discentes gravaram a saída da professora durante a pugna entre as discentes, o caso saiu na internet e a professora foi acusada de irresponsável, negligente, enfim, foi afastada.
Moral: ao perceber uma briga, abone.

O Barato

O professor chegou à porta da sala, vários discentes ainda estavam no corredor, alguns pegaram até cadeiras para, mais confortavelmente, sentarem-se. O professor pediu que levassem a cadeira para a sala e entrassem, depois de muito insistir os discentes entraram. Dentro da sala, uma bagunça tamanha, alguns corriam, papéis voavam, um dançava sobre a mesa, outros ficavam a ouvir músicas com o celular, enfim, o professor, nervosamente começou a bater na mesa, alguns discentes começaram a se acalmar. O professor pediu que um aluno apagasse a lousa, a bagunça continuava, pegou dois alunos que corriam na sala e ameaçou dar-lhes uma suspensão. Várias ameaças foram lembradas: chamar os responsáveis, notas baixas, inspetor, diretor, etc.
Vinte minutos depois percebeu que havia calma, a borrasca havia passado, começou o professor a pedir que abrissem os cadernos, alguns pingos ainda surgiam, mas era só gritar o nome do indivíduo que passavam, de repente o professor percebeu que havia silêncio, foi então que uma barata entrou por uma janela quebrada e o professor perdeu o seu barato.
(Ricardo Gomes Pereira)

Retrospectiva
No começo era tudo um vazio, o pessoal só começou a chegar depois do carnaval. Alguns professores se apresentaram, nem todos, afinal ainda havia a famigerada atribuição de aulas e faltavam vários professores. Com as chuvas de verão, não raro, éramos dispensados, ora alagava a escola, ora faltava energia em razão da chuva, ora ninguém ia mesmo, porque já havia o combinado de sexta-feira gazetear aulas.
No segundo bimestre não foi muito diferente, continuamos sem alguns professores, ou não havia mesmo pessoal ou ainda eram problemas de atribuição, ademais outros saíram de licença. Veio então uma greve, alguns professores, estranhamente, furavam greve e não lecionavam, o número de aulas vagas aumentou consideravelmente. Depois, os grevistas voltaram cabisbaixos e a falarem mal do sindicato. Outros acontecimentos notórios tivemos: brigas de comida, brigas na saída, brigas nas salas, cancelamento da semana cultural em razão de bagunça, brigas em campeonato, etc.
As férias chegaram e alguns foram convidados para reforço, entretanto, não compareceram, o quê? Se durante os dias normais não havia aula, logo nas férias?
Depois das férias a turma já era conhecida, algumas informações já rolavam nos corredores, algumas séries não reprovavam e as que reprovavam os professores reprovariam apenas uma pequena parcela, prejudicaria o nome da escola, o bônus, as notas externas, a alta estima do discente, mostraria um trabalho ruim, etc. Namoros, drogas, bagunça tudo começou a se adensar, logo muitos professores que não faltavam começaram a usar o termo abonar, outros tinham curso e os eventuais eram pouquíssimos e ainda inventavam um dia para agitar o pessoal!! Sem contar que continuamos com falta de energia, falta de água, dias de reunião, gazeteamento coletivo, até suspensão de aula por morte de traficante, ou toques de recolher.
No quarto bimestre tudo era uma modorra. Já havia os combinados de não ir em dezembro até que chegou uma prova do governo para saber o que havíamos aprendido, estranhamente queriam saber se estávamos a aprender algo com textos gigantes e enfadonhos, contas que nunca ninguém havia visto e termos técnicos precisos. Enfim, alguém se preocupava conosco.
(Ricardo Gomes Pereira)

O EXEMPLO

Depois de várias peripécias nada exemplares, resolve o discente jogar um papel na cara do professor. O professor convoca então o inspetor de alunos Paulo Freire. Esse, ao tomar ciência do caso, chama o professor para fora da sala, a fim de lhe dizer que aquilo é normal, porque os oprimidos não percebem, às vezes, que sua liberdade é uma ruptura com a ordem burguesa e que ensinar exige querer bem aos educandos.
Não contente com a resposta, o professor resolve procurar o coordenador pedagógico, Gramsci: caro professor, disse-lhe esse, um de nossos deveres precípuos é quebrar a hegemonia dominante, talvez tal atitude crítica de um papel parta de um futuro intelectual orgânico dessa massa oprimida, há uma crítica implícita neste papel, uma crítica à hegemonia política da classe dominante.
Já descontente, o professor procura o diretor da escola, Vygotsky, esse o recebe acaloradamente em sua sala, feliz pelo novo condicionador elétrico:
– Lembra tanto os ventos das estepes!
Ao saber do caso do professor, o diretor Vygotsky lhe diz que isso nada mais é que uma interação social do grupo de discente, o aluno apenas o tratou como um igual para uma relação de comunicação, o percurso conceitual que você espera não se dará de forma linear, a internalização de nossas normas e costumes é um processo em etapas, a posse cultural do discente por enquanto é a do seu grupo particular.
O professor não teve dúvida, no dia seguinte com seus neófitos, organizou uma guerra de papeis. Consequência, o docente foi despedido e os discentes que participaram ganharam uma suspensão. O professor pensou em recorrer, mas ao saber que a diretora de ensino era Emília Ferreiro, deixou de lado.
Moral: papel na cara dos outros é cosmético.
(Ricardo Gomes)

Tipos de alunos

Aluno Proust: nunca tem lição e vive em busca do tempo perdido;
Aluno Esfinge: está sempre a fazer perguntas;
Aluno privada: vive no banheiro;
Aluno vômito: o professor vive a colocar para fora;
Aluno Seu Madruga: vive apanhando;
Aluno andarilho: está sempre andando pela sala;
Aluno Kafka: sempre perdido em um lugar que não gostaria de estar;
Aluno Stephen Hawking: fica sempre no mesmo lugar, quieto e resolve tudo;
Aluno Mr. Hyde e Dr. Jekyll: ora quieto, ora bagunçando;
Aluno Mágico de Oz: nunca aparece na escola;
Aluno Trotsky: vive fazendo revolução na sala;
Aluno Coringa: sempre sorrindo;
Aluno Mozart: sempre a pensar em música;
Aluno Mike Tyson: só pensa em briga;
Aluno Rembrandt: sempre a desenhar;
Aluno Bob Marley: sempre “de boa”.
(Ricardo Gomes Pereira)

Ruminantia

A professora não conseguia falar porque o aluno X não parava quieto, a conversar, jogar papel, correr pela sala e no mais comportado a bater nos colegas. A professora nervosa vai até o aluno e começa a ralhar com ele. O aluno sem pestanejar solta-lhe a sentença:
– Cale a boca sua vaca!
A professora nervosa sai da sala e chama a inspetora. A inspetora o aluno leva até o corredor, para ele calmamente olha. Como tal criaturinha pode ter irritado e xingado a professora? Mesmo assim a inspetora resolve ralhar com o aluno, assim depois o enviaria à sala, porém o aluno repete a sentença para a inspetora:
– Cale a boca sua vaca!
A inspetora nervosa: nunca ninguém ousou tanto! Leva o aluno X diretamente para a sala da diretora. Chegando à sala da diretora, a diretora olha com raiva para a inspetora, afinal ela não gosta de alunos, problemas de professor, em sua sala tão arejada! Mesmo assim, ao perceber o nervosismo da inspetora resolve falar com o aluno X. O aluno se acomoda em uma cadeira e a diretora começa um sermão sobre relações escolares, logo:
– Cale a boca sua vaca!
A diretora fora de si pede a convocação imediata da mãe do garoto. A inspetora que acompanhou tudo pela rótula fica feliz. Logo chega a mãe do garoto e a diretora convoca a professora e a inspetora como testemunhas.
A mãe, por sua vez, chega com várias sacolas e irritada, afinal ao ver que o filho estava bem, por que a chamaram? Nada grave, como sempre. A diretora explica que o garoto havia xingado funcionários e a professora. A mãe irritada com a situação começa a ralhar com o garoto, mesmo assim a sentença ressurge como uma Fênix errante:
– Cale a boca sua vaca!
Todos olham para a mãe. A mãe, calmamente, revela não perceber pravidade nenhuma. Retira um achocolatado liquido de sua bolsa:
– Oh, bebezinho, está com fome, tome.
O garoto alegremente pega o achocolatado e a mãe o coloca em seu colo, olha para a diretora e pergunta:
– O que ele disse mesmo?
– Nada, já esquecemos -diz a diretora – apenas ruminou algo que aprendeu em casa.
(Ricardo Gomes Pereira)

 

Atribuição de notas

 

- Caro professor o chamei aqui na sala da direção pois constatei que você atribuiu nota zero a vários alunos.

- Sim, são alunos que não fazem nada, mal trazem o material, ficam a brincar e raramente abrem os cadernos. Até pedi a convocação dos pais, porém não solucionou o caso.

- Entendo, vejamos um caso…este aqui, C. F.S.; você o conhece.

- Sim, é da oitava série.

- Humm, ele frequenta a escola.

- Sim.

- Então merece um ponto, não acha, afinal possui algum conhecimento geográfico, consegue chegar à escola, sem contar que consegue localizar a sala. Convenhamos então que o aluno  está presente e merece um ponto pela simples presença!  Aliás, ele traz material.

- Sim, mas não usa.

- Ora professor, se ele traz o material, ele consegue contextualizar o momento histórico, sabe que vem para a escola e que deve trazer o material, mais um ponto.

- Às vezes ele vem sem, e pede para coleguinhas.

- Ora, então ele sabe fazer interações, devemos levar isso em conta, logo mais um ponto.  Ademais, se olharmos bem, chegar até a oitava série sem desistir, devemos estimular esse jovem, mais um ponto. Diga-me, ele sabe escrever o próprio nome.

- Sim.

- Então mais um ponto. E você, professor, é um aluno seu, você deve ter dado recuperações para esse aluno, e ele merece uma nota, pois foi oportunizado! Finalmente, a escola, nossa escola tem o objetivo de garantir o sucesso do aluno, assim a própria escola tem o dever de atribuir um ponto ao aluno em questão. Agora vejamos, três, cinco…sete. Pronto professor, o aluno que você daria zero agora tem sete, veja que daria uma nota zero a um aluno de sete! Deve mudar seu conceito de avaliação caro mestre!

- E o meu de escola também.

- Ora professor, que nota atribui a nossa escola, zero também?

- Não sete.

 

Ricardo Gomes Pereira

 

Sequestro


Alguns mascarados sequestram o professor:
– Cadê o bônus mestre? Passa o bônus!
– Mas eu não ganhei, acho que os alunos não foram bem na prova!
– Mentira professor, o ladrão tira a máscara, um ex-aluno do 3.º !
– Eu fiz a prova fui aprovado!
(Ricardo Gomes)

A ENTREGA

            Exigiu a secretaria à professora que fosse conversar com o diretor, aparentemente o caso era grave. Logo a  professora K., que passara um ano naquele local sem nunca ouvir falar sobre o diretor? Quando chegou à sala foi bem recebida, percebeu que seus diários estavam na mesa do diretor. Com certeza havia algum problema no preenchimento, ela havia entregado o diário, pois pediram em razão do final de ano, porém, ponderou a professora K. ela sempre escrevera no diário de forma correta.

O diretor então pegou um dos diários e começou a ler para a professora K.

25/02 não tivemos aula em razão de uma falta coletiva de alunos. 30/3, os alunos foram dispensados na última aula, porque morreu um traficante do bairro, luto oficial; 01/4, chuva, alagamento, aulas canceladas; 3/4, em razão de um roubo cometido no dia anterior, não foi possível lecionar em sala, houve um vandalismo que inviabilizou a primeira aula; 5/4, bomba no pátio, durante o intervalo soltaram uma bomba, as aulas foram suspensas, dois alunos feridos; 8/4, alunos roubaram a chave da inspetora e a grade de entrada das salas foi fechada depois do intervalo, chamaram a polícia, aulas suspensas. Temos mais professora, veja que escreveu quando os alunos faziam falta coletiva antes de feriados! Além disso, você deu notas baixas para quase uma sala inteira, veja que são mais de cinquenta por cento de alunos reprovados, como consegue isso? Por favor, não diga nada agora, ainda não terminei. Em outros diários há registros como: briga de alunos, aula inviável. Campeonato, metade dos discentes fora da sala, ou seja, aula livre. Semifinal do campeonato, gazeteamento coletivo, aula suspensa.

- Mas é a verdade!

- Ora, professora K. Desculpe-me a sinceridade, sabemos que isso acontece, os pais sabem, os professores sabem, os alunos sabem, o MEC sabe,  menos o diário, este não sabe, entende-me?

- Há muita verdade, mas não para nós, é isso que estou a ouvir.

- Não seja tão filosófica, pense como um profissional, ou seja: há muita ética, mas não para nós.

(Ricardo Gomes Pereira)

HIPÓTESES SOBRE OS DISTRATORES

6h40 – Há três professores na sala de professores, dois ainda dormem, um olha a grade horária e lamenta duas aulas seguidas na 8.ª G.

6h45 – Chega mais um professor. Os portões são abertos e os alunos começam a entrar. Barulho ensurdecedor de músicas em celulares, predominância de funk. A inspetora entra na sala, e diz que devemos ligar para a polícia, porque há muitos alunos do lado de fora fumando maconha.

6h50 – Chegam dois professores, ainda faltam oito. A coordenadora entra na sala e comenta o caso da maconha acrescentando que três indivíduos estranhos, não alunos, também entraram na escola, assim pede para os professores subirem antes do sinal, colocar os alunos na sala e trancar a porta, ela, por sua vez, tentará fechar o portão mais cedo.

6h55 – Explode uma bomba na escola, o barulho é ensurdecedor, uma professora, que acabara de chegar entra correndo na sala dos professores.

7h00 – Bate o sinal e os professores têm que colocar os alunos na sala. Algumas salas sem professor, a vice-diretora tenta um combinado para que alguns professores fiquem em duas salas: passem alguma atividade, diz ela já alterada.

7h10 – Chegam mais dois professores. Três salas sem professor e duas com professores alternando. Os invasores saíram. Muitos alunos em suas carteiras usam a mochila como travesseiro e dormem.

7h20 – Aparente normalidade, entretanto um aluno é expulso da sala no 1.º B por ouvir música no celular em alto volume.

7h40 – Primeira briga na 8.ª A, logo em seguida brigas na 7ª G e no 2.º B.

7h50 às 8h40 – fim da primeira aula, muitos alunos aproveitam que existem aulas vagas e vão  passear pela escola, alguns começam a correr. Um aluno tem convulsão e outro, autista, bate sua própria cabeça na parede, desmaia, chamam a SAMU.

9h – Acaba a energia, gritaria em toda a escola, sobe um cheiro de maconha, de repente outra bomba às 9h10. A energia retorna às 9h30, já no intervalo. No intervalo aparece a coordenadora com as provas de avaliação em processo surpresa da secretaria. Os alunos, segundo ela, devem fazer a prova até 12h20, Língua Portuguesa e Matemática, vinte questões. Professores questionam que os alunos terminarão logo e a situação ficará sem controle. Outra bomba explode e guerra de comida no pátio. Alunos começam com o nada amigável coro: rebelião, rebelião, nasce outra briga. A coordenadora pede para os alunos subirem, aparece a vice e ameaça dar suspensão coletiva.

10h20 Começa a prova, apesar dos questionamentos dos estudantes sobre a validade da mesma.

Um ano depois, em uma reunião pedagógica a coordenadora traz os dados da prova de avaliação em processo. Pede, gentilmente, que os professores analisem as provas e levantem hipóteses sobre os distratores, segundo ela, o resultado do ano anterior foi muito ruim;  afinal, por qual razão 80% dos discentes erraram a questão 1 de Língua Portuguesa optando pela letra C ou D em vez de A? E assim foram os professores levantar hipóteses centradas no conhecimento prévio do aluno.

(Ricardo Gomes Pereira)

CONCLUSÕES

                Quando o transporte público não funciona, vemos as pessoas em ônibus superlotados, motoristas ganhando pouco, ganhando pouco e estressados pelo trabalho, ônibus antigos e sem nenhuma segurança; chega-se a conclusão: a culpa é do governo que não investe em transporte público.

Quando a segurança pública não funciona, vemos as pessoas inseguras, inúmeros casos e mandados de busca acumulados e sem solução, policiais ganhando pouco, ganhando pouco e estressados pelo trabalho, carros e armas antigos; chega-se a uma conclusão: a culpa é do governo que não investe em segurança pública.

Quando a saúde não funciona, vemos as pessoas não assistidas, hospitais superlotados, doenças simples complicando-se, em razão de ambiente insalubre, médicos ganhando pouco, ganhando pouco e estressados pelo trabalho, aparelhos antigos e falta de medicamentos; chega-se a uma conclusão: o governo não investe em saúde pública.

Quando a educação não funciona, vemos salas superlotadas, professores ganhando pouco, ganhando pouco e estressados pelo trabalho, concepções pedagógicas antigas e sem efeito, inclusão de casos que vão além da formação do professor; chega-se a uma conclusão: a culpa é do professor.

(Ricardo Gomes Pereira)

FÁBULA

O leão, grande rei da floresta, percebeu que os animais menores afastavam-se dele, mostravam medo e isso começou a prejudicar a dieta do grande rei. Chamou então seu secretário de assuntos estratégicos: a raposa, e perguntou-lhe o que se passava na floresta, qual a origem de tal temor que contrariava e prejudicava a cadeia alimentar. As raposas então revelaram que o problema estava na educação, os animais estavam conscientes demais da realidade, sapientíssimos! O leão, deveras furioso, as corujas, pedagogas da floresta, mandou convocar. Depois de ralhar e ameaçar os financiamentos de pesquisa das corujas, pediu-lhes  que fizessem algo.

As corujas então resolveram mudar o método de ensino, começaram a convencer os outros animais que auxiliavam na educação de que agora deveriam aplicar métodos novos, modernos, afinal  as gerações eram outras,  ninguém ensina nada a ninguém,  deveriam largar toda a tradição, banir métodos, valorizar o erro dos animais, flexibilizar avaliações, anoxericar currículos, valorizar o espontâneo  e que  cada um constrói o seu conhecimento.

Não demorou muito para os animais mudarem de atitude, começaram a deixar de lado o temor ao leão, porque não sabiam História; não se comunicavam direito, porque não respeitavam normas de linguagem; não percebiam quando alguém estranhamente sumia, porque não sabiam contar; achavam que outros animais não lhes ofereciam perigo, porque não conheciam ciências; não conseguiam correr e se esconder perante o perigo, porque não faziam Educação Física, nem Geografia, etc.  O leão ficou feliz, afinal obteve de volta o fácil banquete.

Educação: um bem para todos, manipulada por poucos.

(Ricardo Gomes Pereira)

Final de Ano

Eu estava sentado na cadeira do ônibus, faltava pouco para chegar e acompanhava a cinzenta paisagem urbana pela janela. Ouvi a catraca e olhei, todos olham, instinto, quando o ruído da catraca anuncia um novo passageiro olhamos, talvez na busca de um amigo, medo do anjo da morte, assalto, enfim, distração. Passado um tempo, assustei-me, porque a catraca fez um terrível barulho! Era uma mulher, suponho que fosse, alta, fortíssima, em rotas indumentárias um buço que lembrava Nietzsche ou Stálin. Ela se aproximou de mim, desconfiei que não fosse uma mulher, ofegava, seus passos me davam calafrios e, o que é pior: havia um lugar vago ao meu lado! Não nego, tive, medo, receio, enfim, levantei-me para ceder os dois lugares.

Quando estava em pé, procurei não olhar diretamente para o rosto dela, senti um estranho torpor, no chão havia pó de giz e baratas, um sibilo em timbres horríveis ficava cada vez maior, surgiram mesas, os passageiros sorriam, alguns tiravam fotos e ouviam música no celular, tudo se misturava em um vômito de cãibras! Fraco, queria sair, mas meus pés estavam acorrentados, seguindo a corrente via-se o livro de ponto no final, que descia pendurado pela janela.

Um vento forte mexeu as folhas do diário. A mulher que estava em minha frente perguntou se eu não lhe daria o visto, era Afrânio Bartoldo, aluno da EJA que segurava seu caderno. Percebi que estava em sala de aula, na sapiente mesa do professor.

(Ricardo Gomes Pereira)

NO CORREDOR DA ESCOLA, ANTES DA PRIMEIRA AULA

Bom dia professora, antes de entrar em sala, considero necessário dar-te mais alguns informes, imprescindíveis, sobre a tua nova sala. Não permitas que N.R. saia da sala, ela já tentou abusar sexualmente de um coleguinha. Atenção para os números nove, quatorze e vinte e seis, deves colocá-los sempre separados, pois, além de conturbarem a aula, costumam brigar de forma violentíssima. O aluno F.P. tem TDAH, convém que ele corra pela sala, pois logo se cansará. O aluno M.F. estava suspenso, retorna hoje, será necessário revistar o material dele, haja vista os precedentes de que  ele já trouxe facas na mochila e há ameaças, pueris ou não,  de que ele irá matar V.M. J, em razão disso, esse último senta-se ao lado do professor. A aluna M.R. costuma receber entidades sobrenaturais, a outra professora fazia o sinal da cruz e dizia algumas palavras em latim, talvez um pax vobiscum resolva, bom, caso ela comece a  girar na sala, já sabes. O número dezesseis costuma babar, é bom ter sempre em mãos um pano separado. Atenção especial para os gêmeos, porque são agressivos, sobretudo com os professores, qualquer coisa corres até o corredor, será necessário gritar, pois a inspetora fica no corredor de baixo. Cuidado com objetos pessoais de valor, em sala furtos acontecem frequentemente. O número trinta é L.A. Não, professora, L.A. não quer dizer que ele veio de Los Angeles, ele logo será transferido, verás que não condiz fisicamente com a turma. Outra coisa, não correr atrás de alunos; nunca deixar a sala sozinha; cautela com as posições que faz em sala, eles filmam e colocam em rede e não fiques muito tempo de costas para a sala, evite isso ao máximo. Acho que é só isso. Bom a outra professor não voltará este ano, ao que parece desconfia que seu marido seja um uxoricida e ouve vozes de alunos.

Chegamos, professora, sejas  bem- vinda à quarta série A.

(Ricardo Gomes Pereira)

Joãozinho vai aprender os números

- Olá turma, hoje vamos falar sobre os números, você estão rodeados de números, por exemplo, João qual o número do canal de televisão a que você mais assiste? : não sei professora, procuro desenhos, assisto globo, o número da Globo. Não João, vamos pensar outro número, qual o número de sua casa: Não sei: Mas toda casa tem um número, na sua rua, você já observou as numerações, são usadas para os carteiros se localizarem, você lembra?:  Não professora, moro em uma viela e o carteiro não vai até as casas: Amanhã você anota o número de sua casa, tudo bem? : Tá.

No dia seguinte: João, qual o número de sua casa?: Nossa professora, esqueci-me de que era para anotar: Amanhã você me traz, sem falta, tudo bem? : Tá.

No dia seguinte: João, qual o número de sua casa?: Professora, minha mãe disse o número e pediu que eu o decorasse: Não menino! Não é para decorar, decorar não pode! Era para você anotar, relacionar, tentar descobrir,   o número faz parte de sua vida, não é para decorar, mas, enfim, qual era o número?

- Agora esqueci professora.

Ricardo Gomes Pereira

Os idiotas
Brasil: o garoto então se sentou à mesa e soltou a fatídica sentença:
- Mãe, a professora hoje me chamou de idiota.
- O quê?! A mãe não pensou duas vezes, no outro dia foi à escola xingar a professora de vaca e vagabunda, criticar a direção e ameaçar entrar na justiça. Depois o garoto foi levado ao psicólogo que descobriu que o garoto estava com baixa estima e talvez precisasse de remédios.  Ela resolveu  contratar um advogado para processar  a escola e, sobretudo, a vaca da professora. A professora, por sua vez, começou a pedir licenças médicas consecutivas, até não aguentar e pedir  exoneração. A mãe também levou o fato aos meios de comunicação em massa que mostravam o pobre aluno fatalizado e a professora autoritária. Alguns pseudopedagogos começaram a usar o caso em suas argumentações, criaram até o termo hiperbulling, ou big bullyng, “para ficar mais chique”, argumentavam alguns; ademais já existe a proposta de filmar o medonho acontecimento,  como exemplo de péssima prática pedagógica.
No outro extremo, indo pelo pacífico, em uma região de monções, onde habitam os jaculus jaculus ( latim também fica chique não achas?)e o panda gigante, enfim: na China, um garoto aproximou-se de sua mãe e disse:
- Mãe, a professora hoje me chamou de idiota.
A mãe respondeu:
- Estude mais e mostre à professora que você é inteligente.
(Ricardo Gomes Pereira)

O mineiro cândido

Um mineiro todos os dias ia até a mina de carvão, descia com equipamentos ultrapassados, não se protegia direito, ganhava pouco e seus patrões cobravam coisas absurdas. Era difícil retirar o carvão, eram muitos e ele um só, além disso existia outro agravante, os carvões não queriam sair dali, mas ele insistia naquela mina, todos os dias descia e voltava com o carro pesado, porém quase vazio.
Uma vez lhe perguntaram por que ele continuava ali? Procure outro emprego, vá a outra mina? E ele respondeu:
– Gosto daquilo que faço.
– E seu filho? Achas que ele seguirá tal caminho?
– Sim, ele tem um emprego parecido com o meu.
– O que ele faz?
– É professor.
(Ricardo Gomes Pereira)

Teste

            – Pessoal, são quarenta questões de múltipla escolha, há apenas uma correta e esse teste é para saber como anda a educação em nosso país: Professor!! Terminada a prova podemos ir embora? Embora não, quem terminar a prova deverá sair da sala e ficar no pátio a esperar os demais. – Terminei!!!

- Vocês terão duas horas para fazer o teste, quem terminar antes, só poderá sair depois de uma hora.

- Não entendi?

- Depois de uma hora pode sair.

Os discentes fazem silêncio e começam a fazer a prova, depois de meia hora um levanta a mão e pergunta ao professor se já haviam se passado os trágicos sessenta minutos. Ainda não, respondeu o professor. O professor se espantada com a agilidade dele e pergunta:

- Já terminou?  Sim professor: Faz uma revisão então: Revisão professor, e só colocar alternativa “B” em todas. Eu também já terminei, eu também e eu! Esperem o horário, por favor!

Depois de uma hora, o professor pede aos alunos que já terminaram a prova para deixarem os testes na mesa do professor. Em uma sala de quarenta e dois alunos, quarenta e um deixam os testes na mesa do professor. Todos com a alternativa “B” assinalada. Fica apenas um discente, no fundo da sala, cabisbaixo a ler concentradamente o teste. Sim, pensa o professor, um faz a diferença, para aquele isso tem valor, importância, vale a pena, tudo vale a pena quando não encontramos almas pequenas. O professor aproxima-se do aluno, coloca a mão em seu ombro e lhe pergunta se a prova está difícil.

- Não professor, é que ainda não achei o “B”.

(Ricardo Gomes Pereira)

A construção da desconstrução do conhecimento

- Pessoal, corrigi as provas de vocês e vocês não entenderam o enunciado: professor você tá chamando a gente de burro? Não é isso, é que era um pequeno texto: pequeno nada, uma página inteira, e um texto chato. Então, o enunciado. Professor o que é enunciado? A pergunta. Por que você não fala apenas “pergunta”? É que faz parte do processo de letramento. Letra o quê? Letramento, conhecer variantes linguísticas. Que papo é esse de língua professor.  Pois bem, o texto: professor por que você só passa texto, texto, texto, não aguento mais, faz outra coisa. É que a proposta. Probosta? NÃO PROPOSTA! A proposta é trabalhar textos complexos mesmo: O que é compleksó. É algo difícil. Você passa um texto difícil, faz perguntas sem sentido e depois nós que somos burros e não sabemos ler? A pergunta não era sem sentido, pelo contrário era sobre o sentido do texto: Professor, não estou entendendo nada. No texto tinha um monte de palavras que eu não conhecia, por exemplo, aqui tem uma, o que é “se-á”? Como? Se-á! Tá aqui. Ah, é dever-se-á. Nunca vi isso. Faz parte gente, aprendemos aquilo que não conhecemos. Mas em uma prova!!!   A pergunta não era o significado desta palavra, era sobre intertextualidade relacionada ao conhecimento prévio de vocês. Conhecimento de prédios professor? PRÉVIO, aquilo que vocês já conhecem! Se falava sobre algo que conhecemos, como a “gente erramos”? Você está chamando a gente de “burros”!! É professor, não entendo nada na sua aula, cada dia é um texto mais chato que o outro. Isso mesmo, e depois aplica uma prova com coisas que não sabemos. É que vocês não leem. De novo professor, falando que a gente não sabe ler, todo dia eu leio o jornal de esporte para saber do coringão. EEEEEEE. Mas é esse o problema, você tem que ler textos em outros gêneros. Vou ler texto de mulher professor?

-Tudo bem, vamos fazer algo bem tradicional, vamos conjugar verbos?

- Professor, o que é conjugar?

- Professor, o que é verbo?

A ÚLTIMA VOLTA DO PARAFUSO

A empresa “x” de parafusos começou a entrar num mirabolante processo de falência, sobretudo depois que começou a ser administrada pelo atual dono, herdeiro nato. O jovem herdeiro, em uma tentativa histórica, resolveu inovar e contratou uma equipe de pedagogos construtivistas como consultores, para que esses dessem uma formação ao corpo administrativo do alto escalão. Os pedagogos construtivistas levantaram o aparente sofisma de ensinar aos administradores que ninguém ensina nada a ninguém, cada um constrói seu conhecimento, logo cada um constrói seu próprio parafuso, logo o grande problema da empresa estava na ignorância, secular, da epistemologia do parafuso, ou melhor, a psicogênese da produção do parafuso, dominar os estágios naturais de produção, seria uma pré-condição para a produção natural, enfim a filogênese se repete na ontogênese.

O fato de a empresa anteriormente dar lucro dentro de certos princípios, apontados pelos pedagogos construtivistas como tradicionais, era algo antinatural, antirracional, enfim, basear-se-ia a produção no estágio de desenvolvimento do indivíduo e do parafuso, eis a união, se não a perfeita, ao menos a necessário para a construção do funcionário flexível com competências e habilidades comprometidas com o seu tempo.

A equipe de administradores obteve uma formação em grupos produtivos a resolverem situações problemas ora simples em demasia, ora complexas o suficiente para exigir na resolução a criação de outro elemento na tabela periódica, não obstante alguns princípios foram aplicados imediatamente, por exemplo, todo funcionário estava em formação contínua e não era mandado embora, despedir era como reprovar, deveríamos respeitar o tempo de cada um; os funcionários deveriam manipular todos os gêneros de parafusos, mesmo aqueles que nunca iriam produzir; se um funcionário cometesse um erro, não era advertido, nem o ensinavam a maneira correta, ele era levado a uma reflexão sobre a possível causa de seu erro, imagine quantas peças erradas eram produzidas até o acerto.

A empresa faliu mais rápido do que era esperado e os pedagogos construtivistas creditaram o fracasso ao mau desempenho dos administradores em provas simplificadas feitas pelos próprios pedagogos construtivistas. Assim os pedagogos construtivistas voltaram à secretaria de educação, de onde já deveriam ter saído.

(Ricardo Gomes Pereira)

O Processo Seletivo da Caverna

Em uma caverna, moravam quatro homens. Há tempos que eles aí viviam. Tanto tempo que o mundo exterior não passava de um sonho enigmático. Certa vez, um dos habitantes, depois de muitomuito caminhar, achou uma saída. No começo a luz lhe afetava a retina, entretanto logo pode avistar os pássaros, as árvores, e a campina, porém o que mais o impressionou foi a força das cores. Correu o encantado habitante ao encontro do seu grupo, contar-lhes-ia o que viu quando conseguira sair da caverna e levar-los-ia a parte ulterior da caverna, afinal com a multiplicação dos olhos enxergaria melhor.

Encontrou seus amigos a contemplarem sombras e tentou explicar o que vira, porém foi logo refutado, disseram que ele não podia chegar assim a lhes ensinar, antes tinha que passar por um teste feito pelos três com uma prova de oitenta questões sobre o mundo exterior e acertar setenta por cento, depois um curso de formação de seis meses sobre “a resignificação na perspectiva do ‘em processo’ das competências e das habilidades das sombras em contextos extra-discursivos no círculo triangular”, depois comprovar títulos, sem esquecer duzentas horas de prática pedagógica e plano pedagógico aprovado, depois de tais detalhes: sim! Eles concordariam em assistir à aula.

(Ricardo Gomes)

7.ºC

Bom dia! professor posso ir no banheiro: agora não, acabei de chegar, depois você vai ao banheiro: depois eu posso mesmo, “to” apertado: tudo bem pode: também quero ir professor!eu também: eu também: professor ele pegou minha caneta: passa lição não professor, minha mão “ta” doendo de tanto escrever: faltou algum professor hoje: não sei, pessoal vou fazer a chamada, façam silêncio: meu número é quarenta professor deixa eu ir no banheiro: professor não apaga a lousa: olha esses papeizinhos, professor: gente parem com os papeis: número um: professor a Sheila “ta” menstruada: não “to” não seu viado: o professor começa essa aula aí: dois: quem foi o filho da puta que jogou o papel: três: oh professor o um “ta” presente: mas você não respondeu: silêncio sala! (bate-se o apagador na mesa): o professor até você chegar no quarenta já mixei nas calças: sua mãe: SOLTA ESSA PORRA, SOLTA ESSA PORRA (dizem que é música): desliguem o celular: chama a diretora professor: professor amanhã tem aula: por que não haveria: tem jogo amanhã: quatro: presente: cinco:presente: cu quente: ´´e o da tua mãe:eeeeehhhhhh: professor pegaram meu lápis: sete: é o seis professor? seis: faltou: não peguei nada não, aí no chão: foi você que jogou: TUM, TUM, TIM , TUM, TUM TUTIM: já falei do celular: oito: aqui: nove: morreu: dez: foi prá bahia: “to” aqui professor: onze: onze: doze: presente: o onze “ta” aqui professor: filho da puta para com isso (ela chuta uma cadeira): professor posso passar a lição na lousa: silêncio(levanto-me e ameaço ir para a diretoria): vou chamar a diretora, assim não dá para trabalhar: o professor deixa eu ir no banheiro: você, se continuar jogando papeizinhos vai para a diretoria: ele jogou em mim primeiro: píiiiiiii: o sinal professor: parem com isso, por favor: treze: professor deu presença para o onze: sim: valeu pro, você é gente fina: e para o  dois professor: silêncio, olhe, não vou mais fazer chamada, abram os cadernos e vamos continuar a proposta(indicação da proposta- conversa em grupos): bom vamos trabalhar um texto: não professor e a chamada: é: eu não vou fazer nada se não me der presença: sem presença a gente reprova: eeeeehhhhh: chamada:chamada: vem aqui seu cuzão (dois alunos começam a brigar) : briga: briga: o que “tá” acontecendo aqui (chega a inspetora) você dois, comigo agora: vou te matar: que conversa é essa, vocês são bichos: vamos os dois: professor precisar de ajuda é só chamar, pois essa sala esta muito alegre. quatorze: aqui: quinze: aqui: dezesseis: aqui: trim, trim: professor, posso atender o celular lá fora, minha mãe “ta” doente: vai: sou o quarenta e oito: é mentira dele professor: você não me deixa ir no banheiro e ele pode atender celular, mãe doente, caiu nessa professor: aí professor, dá suspensão, “ta” te chamando de otário: otário é você:: olha pessoal, vamos para a aula, vou dar presença para todo mundo: eeeehhhhh: ah profi,  soubesse não teria vindo:

-Eu também!

(Ricardo Gomes Pereira)

Superlotação

Quarenta alunos numa sala de aula. São quarenta alunos numa velha, modernizada pelo agora, sala de aula. Mais de quarenta no diário e quarenta alunos na sala, sim, quarenta alunos altos, baixos, obesos, anoréxicos, epiléticos. Quarenta alunos com seus complexos, fantasias, medos e alegrias. Quarenta alunos, quarenta seres humanos no calor e no frio, trancados, sentados no cubículo da sala de aula. Quarenta conscientes e quarenta inconscientes, quarenta, quarenta alunos na quarentena educacional. Quarenta adolescentes, crianças, infantes. Com enurese, quarenta alunos; com ódio, quarenta alunos; com hipertensão, quarenta alunos numa sala de aula. Em uma sala de aula para trinta, quarenta alunos, cobaias neoliberais a sangrar esperança. Desmotivados: quarenta alunos! Hiperativos: quarenta alunos! Quarenta solidões, quarenta carteiras, quarenta corações…quarenta, ouso repetir que há quarenta alunos numa sala de aula, alguns faltaram! Há quarenta, quarenta alunos numa sala de aula. Quarenta: – posso ir ao banheiro? Quarenta: – não entendi nada! Quarenta: – faltou algum professor hoje? Quarenta alunos, quarenta almas. Patrícios: quarenta; marginalizados: quarenta; celularizados: quarenta. Nas ruas as vozes dos quarenta, dos quarenta alunos, dos quarenta alunos numa sala de aula. Sim, quarenta alunos numa sala de aula.

E um professor.

(Ricardo Gomes Pereira)

Aula n.º 1340

assunto: Incofidência Mineira

Função: eventual

objetivo: passar na lousa o texto que o professor titular deixara.

A Inconfidência Mineira foi um dos (professor! É para copiar?: claro, ou achas que passo na lousa por passatempo) mais significativos movimentos (vale nota professor?: acho que sim, o professor de vocês que me pediu) da história do Brasil. (então não é para copiar no caderno de eventual professor? Não no de história) Significou a luta (você vai dar visto? : sim) do povo (o texto é longo professor?: não) brasilei – paf – (pessoal, sem jogar papelzinho né, e abaixem o volume do celular: o outro professor deixa, quando está passando lição na lousa, não incomoda ninguém só você) ro contra a (letra feia professor, não entendo nada: copie por favor: como copiar se não entendo?) opressão do (vai devagar professor) dos – tum- chutam a porta (filho da puta vai chutar a mãe: gente o quê é isso!) português ( para seu veado: vou te mostrar o veado!: ei se abaixar as calças vai para a diretoria, sem correr na sala!!!!) Ocorreu em Minas G(professor ali não tem sentido, depois de opressão vem do português: é verdade: o professor copia o bagulho certo: arrumem aí no caderno pessoal faltou governo colonial: deixa sem, ninguém vai ler depois mesmo: esse texto não acaba não) em 1789 ( Minas G professo? Desculpem: eeeeeeeeeee: meu celular!!! roubaram meu celular!!! vou para a diretoria agora!!) Gerais, em pleno ciclo do (Que cheiro de queimado é este? Maconha professor: o professor anda dando uns pegas: não, é papel….tem nada comingo: nem comigo: tá me olhando por que professor? ) No final do século XVIII  ( pula linha professor: sim é parágrafo: paráoquê?: Mais uma vez histórias com celular, licença professor, já falei que não é para você trazerem celular, depois vão reclamar de sumiço: bate geral na turma: essa sala ficará sem intervalo ou aquele que pegou por brincadeira entrega, não vou fazer nada é só entregar agora…………….: mas não fui eu e vou ficar sem intervalo: não quero saber, se não aparecer ficará sem intervalo e tchau) Os inconfidentes definiram uma nova bandeira com inscrição em latim (liga para o celular: é verdaaaadeeeee) que trazia (tá chamando! Aló, mãe, nossa gente, deixei ele em casa: eeeeeeeeeee) os versos “libertas quae sera tamen” que traduzidos seriam (tooooooooooooooooooo: o sinal, o sinal, acabou a aula professor tchau, tchau).

Liberdade ainda que tardia.

(Ricardo Gomes Pereira)

OS DISSIMULADOS

Quadro 1 – Os Mercadores do Templo

O número sete gritava com o número quinze no outro extremo da sala. Os números doze, vinte e nove, dezessete e cinco estavam no fundão, aparentemente quietos a olharem algo no celular, quando eu me aproximava, eles guardavam o celular. As meninas quarenta e dois, trinta e nove, dois e dez conversavam alto, a fim de provocar a vinte  e quatro que, ano passado, beijara  o dezenove. O número um e o vinte corriam na sala, imitando uma moto. Dez, vinte e três e trinta e quatro brincavam de luta e corriam na sala. O oito, inclusão, sorria e copiava vagarosamente. Comecei a gritar para pararem, porém nada. Vinte e cinco e trinta e sete começaram a fazer ritmos repetitivos com as canetas na mesa. Seis trinta e oito e trinta copiavam a lição calmamente. Quatro insistia em ir ao banheiro, vinte e sete, trinta e seis e seis também. Nove, com a tampa da mesa, brincava de surfista e vinte e um fazia da carteira um cavalinho. Dez e trinta e quatro começaram a brigar seriamente e dez, aparentemente ferido, foi à diretoria. Três caiu da cadeira e todos gritaram: vacilão, vacilão! Oito jogava papel no onze e em outros da sala. Dezesseis perguntava o que estava escrito no eterno ali. Treze lambia a mão e ameaçava tocar no vinte e dois e trinta e cinco. Trinta e três e trinta e oito ficavam na porta, brincando de fechá-la.

Quadro 2 – A Santa Ceia

Trinta e oito e trinta e três alerta avisam a sala que a coordenadora pedagógica dirigia-se à sala. Pam…pam, pam, pampam!!! Eles fazem fileiras, abrem os cadernos e ensaiam um melancólico silencio de carpideiras. Separam os grupos, organizam-se num quadriculamento de fazer inveja aos jesuítas.

Eu, ainda atônito diante da Santa Ceia tendo ao centro Judas, olho a coordenadora na porta da sala. Ela me chama para uma rápida conversa no corredor:

- Professor, você deveria fazer atividades em grupos, a sala é um espaço funcional para aprender a aprender, para mediar as habilidades e competências dos alunos. Vamos marcar um horário e rediscutir seu plano de aula, ok!?

- Tudo bem…

Ela sai.

Todos gritam!

Ela dessai, aponta para um aluno que estava em pé e o leva à diretoria, suspensão de dois dias. Se gritarem novamente levarei outro. Silêncio. Ela ressai.

Silêncio. Sinal!! Gritos novamente.

Os mercadores retornam ao templo.

(Ricardo Gomes Pereira)

About these ads

4 Comentários »

Feed RSS para comentários sobre este post. TrackBack URI

  1. Adorei seu blog, só li o primeiro post, mas achei muito legal!!!

    Beijo.

    • Obrigado, quando tiver tempo leia os outros e sinta-se a vontade para eventuais críticas e sugestões.

  2. Colega, compartilho muito desses momentos, hoje foi um deles. Difícil, muito difícil, por ora me questiono o que faço na educação…

  3. Vc descreve o cotidiano fatídico dos discentes magestosamente, parabéns por ser nossa voz, tão cansada de clamar por soluções, uma classe de profissionais sem o mínimo de respeito, de um país sem rédeas e sem freios.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com. | O tema Pool.
Entries e comentários feeds.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

%d blogueiros gostam disto: